Cam e Landon se conhecem após ele salvar a vida dela. A partir daí criam-se laços; lembranças são trazidas novamente à superfície da mente de Cam e acontecimentos inesperados os obrigam a unirem-se para descobrirem a verdade e correm perigos que nem imaginam.


Sonho e Medo é um romance que envolve mistérios, descobertas, receios e acima de tudo sentimentos que surgem sem serem notados.


Uma história fictícia mas que reflete muitos sentimentos e atitudes reais que fizeram e ainda fazem parte da vida de muitas pessoas, ou poucas delas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sonho e Medo - Capítulo 4 - Aproximação

O silêncio foi quebrado por um suave som de leves passos na floresta que se aproximaram-se de Cam. Ao longe já podia avistar a imagem de quem se aproximava. Com o vento frio e a neblina, a visão não era muito clara, mas a capa dele era jogada ao vento e as feições não eram estranhas à Cam. Cada passo mais próximo, a luz iluminava-lhe e ela já podia distinguir a cor dos olhos dele que eram transparentes como a água cristalina refletindo um azul totalmente puro, suave e cintilante.

- Então veio. Não acreditei que viria, não esta noite e ainda mais essa hora. Sua casa é muito longe para vir até aqui e voltar antes de ser muito tarde.
- E você pretende voltar à sua casa? Eu não tenho problema algum para retornar mesmo sendo longe, mas você se arrisca em ficar sozinha por aí principalmente à noite.
- Está certo, eu quase sempre fico aqui até os primeiros sinais de sol. Não tenho muito sono, e não gosto de ficar em minha casa sem ter o que fazer, então venho para cá.
- E sua família não se preocupa com você?  
- Eu já lhe disse que não há ninguém para se preocupar comigo e nem quero.
- Então você mora sozinha? Não.. não tem família?
- …
- Eu perdi meus pais há quase 4 anos. Lois ainda era mais jovem que eu e ela sofreu muito.
- O quarto onde eu estava...
- Era o quarto deles... você viu os retratos?
- Sim, eu vi. Vocês eram uma família bonita. Mas... Como eles morreram?
- Foi em uma tempestade. Eles voltavam de uma viagem e com as fortes chuvas meu pai perdeu o controle na estrada e sofreram um acidente...
- … Meu pai morreu quando eu tinha 9 anos... Ele estava na floresta e... E... E eu só sei que quando encontraram ele... Já não podiam mais ajudar. A minha mãe cuida da minha avó em uma cidade vizinha, então eu fico sozinha.
- E não se importa em ficar aqui? Você poderia ficar com sua mãe e sua avó.
- Poderia, mas não quero. Gosto daqui e ficar gosto do silêncio, da solidão, gosto de estar assim como estou.
- E eu estou aqui atrapalhando, desculpe eu...
- Não, tudo bem. Eu te devo muito lembra? Não posso tratar alguém que me salvou tão mal. E eu não disse que não gosto de estar com outras pessoas... Só que às vezes prefiro ficar só...
- A maioria das vezes então não? E porque gosta tanto dessa floresta?
- Gosto daqui e eu vim muitas vezes com meu pai. O ar frio e puro é o que existe de melhor pelo menos pra mim. Aqui eu posso pensar, refletir, fazer o que eu quiser.
- E o que tanto pensa aqui?
- … Tudo. Mas me fale de você, o que você faz?  
- Ah... Depende, faço muitas coisas. Mas se quer saber o que gosto de fazer, é quase o mesmo que você, só não me arrisco em um riacho sabendo que posso me afogar... Mas além disso, eu também gosto muito de tocar piano e eu cuido de um restaurante que era do meu pai enquanto a faculdade não começa.
- Piano? Isso parece ser muito legal!
- É sim, não é só isso. É muito lindo. Se pra você o melhor é ficar aqui pois fica em paz e pode pensar e refletir, tocar piano para mim é a mesma coisa. É algo que preenche algum vazio que existe. Se algum dia quiser eu posso tocar pra você. Mas e você o que faz além de ficar aqui nessa floresta?
- Eu... Eu faço alguns quadros mas... Não é nada demais...
- O que? Você pinta? Isso é algo muito bonito, é uma arte, eu ainda irei querer ver e você terá de mostrar.

Ali ficaram em meio a alguns sorrisos com algumas coisas que falavam. Por vezes ficavam em completo silencio, outras falavam sobre diversas coisas, e permaneceram até os primeiros indícios de luz da manhã. Quando Landon se despediu, e ia tomando seu caminho de volta, Cam o impediu e disse que ele não poderia voltar por aquele longo caminho depois de uma noite inteira acordado e sem comer nada. Convidou-o então para tomar um café, e assim foram juntos até à casa de Cam.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sonho e Medo - Capítulo 3 - Lembranças

- Então, porque estava na floresta?
- Eu... sempre ando por lá.  
- Eu nunca tinha lhe visto. E olha que ando por aquela floresta há anos.
- Então nunca pode me encontrar antes. Claro, agora encontrou uma vez.
- E será que irei novamente?
- Não sei. Eu prefiro ir sempre sozinha, para não correr o risco de encontrar alguém por lá. E ontem, eu não esperava que alguém me achasse.
- Mas pelo seu bem eu pude ajudá-la. Porque estava lá? Como mergulhou e bateu a cabeça, e ficou pelo chão da floresta sem mais nem menos? O que realmente aconteceu?
-Eu não menti. Isso aconteceu, eu só... Eu perdi o controle enquanto mergulhava e acabei quase me afogando. Quando consegui me aproximar da margem eu bati minha cabeça e depois apenas consegui me arrastar para onde me encontrou e... Enfim, você me encontrou.
- Porque perdeu o controle? O que lhe atormentou?
- Nada... Nada.
- Por um acaso, é a mesma coisa que lhe perturbou enquanto dormia?
- Não. Nada me perturbava.
- Porque então chorava? Eu estava ao seu lado, eu a vi chorar... Eu só quero ajudá-la...
- Então não me pergunte mais nada. Landon, eu... eu agradeço muito o que fez por mim, lhe devo a minha vida e não sei como poderei algum dia pagar isso...
- Pode pagar me dizendo se algum dia desses ainda a verei novamente.
- Hum... Isso é algo tão mínimo... Mas sim, verá.
- E quando?
- Não sei. Mas eu não costumo estar na floresta durante o dia, aquele foi uma exceção. Bem, é melhor você voltar agora, já estou perto de minha casa e... Bem, muito obrigado e agradeça sua irmã mais uma vez por mim.
- Eu farei isto. Espero vê-la de novo realmente e totalmente bem da próxima vez. Cuide-se Cam.  

    Landon fez o caminho de volta, enquanto Cam seguia para casa. Em um certo ponto, ela parou e olhou para trás e ainda podia avistar Landon, e ficou o observando por alguns instantes. Querendo ou não, o modo como ele olhava e falava havia a deixado intrigada. Cam sentiu que ele assim como ela, também tinha um ar misterioso. Agora ela não poderia esquecer de duas pessoas que lhe fizeram um imenso bem, e teria de voltar a ve-los ao menos para devolver o vestido e a capa de Lois que lhe foi cedida.

    Depois de voltar a caminhar e passados alguns minutos, Cam chegou a sua casa. Não era muito afastada da vizinhança, mas o suficiente para que ela saísse a hora que quisesse sem ninguém ver quando e onde ela ia. Por isso sempre ia as florestas pela noite e ninguém nunca sabia ou a seguia. A casa não era tão nova, mas bem conservada. Já havia sido construída há 20 anos pelos pais de Cameron. O pai dela havia morrido de uma forma misteriosa na floresta que ninguém sabia, quando o encontraram ele estava com fraturas na costela e na cabeça. Nada puderam fazer para salvá-lo. A mãe, cuida da avó que está idosa e doente e não pode ficar sozinha. Então Cam ficou na casa, até porque não podiam deixar o local vazio, sem ninguém. Ela vê a mãe aos fins de semana. Fora isso, espera pelo início das aulas na Universidade e enquanto isso faz trabalhos relacionados à arte. No porão de sua casa existem dezenas de quadros pintados por ela, mas pouco vai lá ultimamente.

    Sentada no sofá de sua casa, olhando para a janela que dá vista as árvores da floresta, Cameron mergulhada em seus pensamentos depois de muito lutar consigo mesma, com seus olhos, coração e lágrimas, não pode mais segurá-las. Desabou a chorar e lá ficou por horas. Quando não suportou mais, caiu ao sofá e adormeceu.
    Pelo início da noite, ela comeu alguma coisa, e não aguentou ficar na casa por muito tempo e vestiu um de seus casacos longos e saiu para a floresta. Ainda enquanto andava, as lágrimas queriam lhe voltar à face, mas depois de algumas poucas, conteve-se e secou o rosto. Para lá ela ia: à beira do riacho, pensar, refletir, olhar o céu, que era uma das coisas que fazia com seu pai quando ele ainda era vivo. Provavelmente passaria a noite lá, como de costume.
    Para Cam a bela paisagem da floresta à luz da noite, da lua e estrelas era imbativelmente a mais agradável e atrativa. Ela gostava de uma árvore em especial que havia um pouco afastada da margem do riacho. Ficou próxima por um bom tempo, rodeou a árvore, olhou inúmeras vezes para cima, para os galhos, as folhas, e depois sentou-se à beira do riacho. Lá ficou com seus pensamentos em completo silencio e solidão até que algo interviu nisto.

domingo, 27 de março de 2011

Sonho e Medo - Capítulo 2 - Estranhos

Aos primeiros sinais de que a manhã se aproximava, Lois levantou-se e logo foi ver sua hóspede quando deparou-se com seu irmão lá, dormindo na cadeira.

- Ei, acorde. O que aconteceu, porque dormiu aqui? - indagou Lois.
- Ela tossiu um pouco de madrugada e vim ver se estava bem, acabei dormindo.
- Mas a febre voltou? Ela passou mal?
- Não, apenas tossiu, nada mais.
- Oh, que bom! Eu não escutei nada, dormi como uma pedra esta noite.
- Que bom que descansou então minha irmã. Eu não dormi muito.
- Se quiser ir e tentar dormir agora vá, eu cuidarei dela até que acorde.
- Não, eu estou bem, não vou conseguir dormir agora. Não se preocupe.
- Bem, vou preparar um bom chá, café e bolo para nós e para ela quando despertar.

Lois saiu e o irmão permaneceu no lugar que estava, sentado na cadeira, porém agora desperto e observando Cam novamente. Ela voltou a tossir e inevitavelmente abriu os olhos. Ainda olhava para o lado contrário quando olhou ao redor e então seus olhos encontraram quem estava ali com ela. Nada ali lhe era familiar, muito menos aquele estranho na cadeira. Mas em uma fração de segundos em que isso acontecia, notou que a estranha ali era ela e assustou-se por não saber onde estava.

 - O que... que lugar é esse? Quem...
 - Sou Landon. E você está em minha casa. Não se preocupe
 - Porque estou aqui? Eu... - murmurou Cam olhando para o que vestia e sua face mostrava a expressão confusa e um tanto amedrontada.
 - Tranquilize-se, minha irmã cuidou para que você não ficasse com aquelas roupas molhadas e lhe emprestou um dos vestidos dela. Lois, minha irmã é muito bondosa, está fazendo algo para você comer.
 - Como me encontrou? Porque me trouxe?  
 - Eu costumo andar pela floresta, e você estava ferida e molhada, se eu a deixasse lá, talvez teria... Mas, o que aconteceu à você? Porque estava na floresta? 
 - Eu... Eu sempre vou lá.
 - Mas o que aconteceu então? Você estava... tentando algo?
 - Não... Eu não estava tentando me matar... Eu... Eu só mergulhei e acabei perdendo os sentidos e bati a cabeça... Só isso.  
 - Tem certeza? Você... chorou enquanto dormia. Me desculpe mas não é só isso não é?
 - Eu estou bem! - respondeu ela imediatamente surpresa pelo que ele disse. O silencio percorreu o quarto.
 - Me desculpe eu não queria...
 - Tudo bem. Obrigado... Landon... É seu nome não é?  
 - Sim, é esse mesmo. Acho que a pancada não afetou sua memória recente ao menos. - disse ele dando um pequeno sorriso. - Mas, e o seu? Qual o seu nome? - continuou ele.
 - Cam. Ahm... Cameron, mas é melhor que falar Cam.
 - Tudo bem, se prefere assim... Mas é um nome bonito. Vou avisar Lois que você acordou e ela trará algo para que coma.

Landon, este era o nome dele, saiu do quarto e Cam ficou lá sozinha por alguns instantes até que Lois chegasse. Ela olhava todo o cômodo, o quarto, observando tudo com mais atenção. O ambiente em si não era muito iluminado, mas as janelas davam vista para dois lugares: a estrada e a floresta. Por elas, Cam pode notar que aquela manha estava fria e nublada. Alguns quadros nas paredes faziam referencia às paisagens do local, à floresta, à casa, à estrada, e algumas outras que eram desconhecidas. Boa parte dos móveis do quarto eram de madeira fina e tinham uma aparência um pouco rustica e isso os tornava muito belos. Alguns porta-retratos que ela via ao longe, continham fotos de Landon, Lois, e também dos pais deles. Mas mal teve algum tempo para começar a pensar e Lois entrou.

 - Que bom que acordou, lhe trouxe algo para comer, está desde ontem sem se alimentar. Seu nome é Cam, meu irmão já me disse.
 - Obrigado... Lois. Obrigado também pelas roupas, eu não queria incomodar, me desculpe.
 - Não há com que preocupar-se e nem se desculpar. Fico muito feliz em poder ajudá-la. Se Landon não a encontrasse... Talvez você não estivesse viva agora. O que lhe aconteceu?
 - Apenas fui ao riacho e me machuquei, nada mais. Muito obrigado mesmo, como disse, fico lhes devendo minha vida.
 - Não nos deve nada. Apenas se alimente agora, você precisa ficar forte. E não se preocupe com seu vestido, eu cuidei dele e logo estará seco.
 - Obrigado.
 - Vou deixá-la comer e se precisar de qualquer coisa é só me chamar, ou então a Landon.

Cam ficou sozinha então no quarto. Comeu o belo pedaço de bolo e tomou a xícara de chá que Lois lhe trouxe. E agora já começava a pensar naquelas duas pessoas que ajudaram a uma estranha, lhe acolheram, e forneceram roupas e cuidados. Também incomodou-se por estar ali, onde não conhecia e provavelmente perturbando pessoas que se preocuparam em cuidar dela mesmo não tendo qualquer vínculo com eles.
Ela não queria mais ficar ali, e então levantou-se, arrumou a cama em que dormiu e olhou para as roupas que vestia e incomodou-se por estar usando as de outra pessoa. Quando estava indo em direção à porta do quarto para sair, Landon entrou e a viu, logo notou que ela pretendia ir embora.

 - Eu agradeço muito o que fizeram por mim, mas eu tenho que ir agora.
 - Sim, claro, eu entendo. Sua família deve estar preocupada, aliás onde você mora? Fui procurar alguém que pudesse estar sentindo sua falta mas foi em vão pois nem seu nome saiba. Todos devem estar muito assutados com seu sumiço.
 - Ahm... Nunca acharia ninguém. Minha família não existe mais, ninguém daria falta por meu desaparecimento.
 - Você é sozinha? Desculpe a pergunta, mas e sua família?  
 - Não tenho como eu disse... Mas eu preciso ir agora. Ah, Lois obrigado por tudo e também pelas roupas. Poderia me dar meu vestido?
 - Ele ainda não secou totalmente, espere mais um pouco.
 - Não precisa, pode dá-lo assim mesmo, eu irei com ele sem problema algum.
 - Não, eu posso lhe dar, mas ficará vestida com este que está. Não há problema, poderá me devolver depois.  
 - Obrigado.

Quando Cam já estava saindo, depois de receber de Lois o seu vestido de veludo azul escuro, agradeceu a eles mais uma vez, e deu os primeiros passou porta à fora. Lois disse ao irmão que ele deveria acompanhar Cam pois era um longo caminho e eles teriam a certeza que ela ficaria bem. Ele então ofereceu-se a fazer isso e, embora relutante no início, Cam acabou aceitando devido à insistência de Lois e Landon. Assim, eles foram caminhando pela estrada que beirava à floresta e logo iniciou-se uma conversa.

Sonho e Medo - Capítulo 1 - Profundo sonho

 Era uma fria tarde do mês de Agosto e lá estava Cameron... Sozinha, estendida entre as folhas e árvores da floresta que não era muito afastada de sua casa. Ela havia caminhado para lá para se perder, se esquecer, e apagar certas lembranças de sua mente, mas em vez disso ela foi relembrada ainda mais do que queria esquecer. Ela tinha caminhado até o riacho no interior da floresta para olhar seu rosto refletido nas águas...

 Mergulhou o mais profundo que pode para tentar afogar no riacho as lembranças que rondavam sua mente, mas ainda submersa, viu o rosto daquele que ela queria esquecer e agoniou-se querendo emergir mas sem conseguir. Engolindo grandes goles d'água e lutando consigo mesma para voltar à superfície, conseguiu aos poucos aproximar-se da margem. Mas ainda sufocando e sem conseguir abrir os olhos, ao tentar levantar-se para sair totalmente da água e recolher-se em terra firme, suas pernas lhe falharam e ela bateu sua cabeça em uma pedra na margem do rio. Com apenas a pouca força que lhe restava, pode apenas ficar com uma parte de seu corpo fora d'água pois suas pernas ainda permaneceram nelas. Depois de alguns minutos conseguiu arrastar-se aos poucos para fora do riacho. E lá ela se encontrava: sozinha, estendida entre as folhas e árvores da floresta. Tossindo para expelir a água de seus pulmões, e sentindo a dor da pancada em sua cabeça. O frio passou a percorrer os ares da floresta e a atingiu... Com a força do resultado do ferimento em sua cabeça ela acabou por adormecer, ou desmaiar. O corpo dela estendido ao chão da floresta, com as roupas molhadas, sentia o frio e então tremia. Como sinal do que lhe ocorria, seus lábios perdiam o rosado e tornavam-se um tanto azulados. Mas ela ali estava, inconsciente e não apresentava sinais de luta para recuperar-se.

 Passos surgiram próximo ao local onde ela se encontrava, Cam nada ouvia, estava adormecida. Aos poucos os passos tornaram-se mais audíveis e então, o dono dos passos, ajoelhou-se ao lado de Cam. Olhou-a, e fixou-se no rosto dela. A pele extremamente branca e pálida, o corte profundo na testa ainda sangrando, os lábios azulados. O clima ficava cada vez mais frio e ele então deu-se conta das vestes molhadas dela. Sua expressão traduzia o que pensava: “Como aquela garota estava ali? O que havia ocorrido? Quanto frio ela deveria estar sentindo? Apenas com aquele longo vestido de veludo azul escuro totalmente molhado? Ela morrerá se ficar aqui...”

 Com profunda preocupação por aquela garota que ali estava, decidiu ajudá-la, mesmo não a conhecendo. Ao tocar nela, sua mão surpreendeu-se com o calor que ela emitia, pois tinha febre. Ele então, retirou de seus ombros sua longa capa preta, um sobretudo, e a envolveu com ele para protegê-la. Movendo seus braços, tomou-a em seu colo e a carregou pela floresta, passando por entre muitas árvores enquanto o frio invadia ainda mais a floresta que já perdia a luz do sol para a noite. A noite que roubava a cena, enquanto a luz solar era trocada pela luz das estrelas e da Lua. Que roubava o pouco ar quente do dia e invadia com sua brisa e ventos frios. A noite que tirava os raios de luz por entre as árvores da floresta e tornava tudo sem brilho, sem vida, colocava aquele lugar em profunda escuridão.  

Até que chegou em sua casa, e foi recebido por sua irmã surpresa ao ver a garota que ele carregava. Ela imediatamente deu passagem a ele e o seguiu até o quarto para onde ele a levou. Preocupada com a jovem estranha que seu irmão trazia, ela indagou a ele:
 - Onde a encontrou? Quem é ela?
 - Não sei. Mas estava um pouco afastada da margem do rio, com este corte na cabeça e as roupas dela estão completamente molhadas. Arranje roupas para ela minha irmã, enquanto isso prepararei algo para cuidar do ferimento dela.  
 - Sim, farei isso agora. Antes de entrar quando voltar com os curativos, bata na porta para ter certeza que eu já tenha trocado as vestes dela.
Prontamente, Lois arrumou roupas para Cam e a vestiu. Ajeitou os travesseiros para que a hóspede estranha ficasse bem acomodada. Cobriu-a devido aos calafrios ocasionados pela febre. Logo seu irmão retornou e ela o permitiu entrar no quarto. Ele está com curativo e compressas para baixar a febre. Cuidaram dela e depois a deixaram descansar. Já fora do quarto Lois indagou ao irmão como ele havia encontrado e ele então contou a irmã. Disse-lhe que estava andando pela floresta e a avistou ao chão.

 - Não a conhece? Não havia alguém próximo ou com ela? - indagou Lois.
 - Não. E quase ninguém anda por essa floresta Lois. Não havia ninguém com ela e ela estava longe demais de qualquer lugar em que alguém pudesse estar perto ou conhecê-la.
 - Ninguém além de você caminha quase sempre por lá. Então se você não estivesse lá hoje, ela poderia morrer e ninguém saberia por algum tempo. Se ela não acordar logo, teremos que descobrir de onde ela é e quem a conhece por que com toda certeza irão procurá-la.
 - Sim, mas eu não creio que ela acorde antes do amanhecer. Vou sair e voltar para as proximidades de onde ela estava e procurar por casas e pessoas pro lado de onde ela deve ter vindo. Cuide dela.
 - Sim vá, eu cuidarei dela.

Lois permaneceu cuidando de Cam, colocando compressas sobre a testa dela para manter a febre baixa e certificar-se que Cam se recuperava. Lois preparou algo para sua hóspede comer caso acordasse, e depois a deixou no quarto e foi cuidar das roupas molhadas.
Enquanto isso, o irmão de Lois voltou ao lugar onde encontrou Cam e andou dali em diante, procurando por pessoas ou alguém que talvez pudesse estar dando falta de uma garota perdida. Mas foi em vão. Ele não podia simplesmente sair perguntando a alguém se alguma garota havia sumido, se alguém a conhecia enquanto nem ele mesmo sabia o nome dela, não sabia nada dela. Era em vão procurar por alguém que nem ele mesmo conhecia ou tinha qualquer conhecimento. Retornou para casa.
Eles moravam como que do outro lado da floresta. Se seguissem pela estrada ela daria a volta e lá poderia encontrar a casa deles. Do lugar onde ele encontrou Cam até à casa não era muito longe. Mas de onde Cam morava até onde ela estava quando ele a viu era 3 vezes a distância da floresta à casa dele.

 - Teremos que esperar até que ela acorde Lois. Não temos como descobrir nada, nem ao menos sabemos o nome dela.
 - Sim é verdade. Não há problemas, ela dormirá aqui e tenho certeza que amanhã estará melhor e poderemos ajudá-la.
 - E como ela esta?
 - Estava tossindo à pouco, mas já parou um pouco. Fiz com que ela engolisse uma colher de mel e limão, para melhorar um pouco. Mas só posso dar algo forte a ela quando acordar.
 - Espero que ela fique bem. E as roupas?
 - Estava cuidando delas agora, vou voltar a fazer isso. 
 - Sim, eu irei vê-la.

Ele entrou no quarto então e avistou Cam dormindo. Fez uma compressa e colocou sobre a testa dela visto que a febre ainda queria voltar. Ele estava sentado em uma cadeira de madeira ao lado da cama onde ela estava repousando, e a observava intrigado com as circunstancias em que ele a encontrou. Enquanto ao lado dela, Cam voltou a tossir um pouco mas logo parou. Depois de algumas horas, Lois e o irmão foram dormir e deixaram Cam dormindo no quarto em que ela estava. A casa tinha 3 quartos, e onde ela estava era o antigo quarto dos pais de Lois e o irmão, que morreram em um acidente carro devido à uma tempestade há 3 anos.
Pela madrugada, o irmão de Lois ouviu murmúrios vindos do quarto de Cam e logo preocupou-se em que ela estivesse sentindo algo. Correu para o quarto e quando a viu, ela dormia, mas derramava lágrimas pelos olhos. Ela chorava dormindo. Ele concluiu que ela delirava devido à febre, mas ao colocar sua mão sobre o rosto dela, a febre estava baixa. Não eram delírios, deveriam ser pesadelos, algo que a perturbava. Ali ele ficou o resto da noite, observando aquela garota e completamente mergulhado em seus pensamentos sobre quem era ela, o que a levou a estar na floresta e machucar-se, e agora queria saber o que ela levava em sua mente que a fazia sofrer dormindo. A olhava totalmente intrigado e a cada momento sua curiosidade aumentava sobre ela, desde apenas qual seria o nome dela até sobre quais eram as razões de todos aqueles acontecimentos. Depois de muito velar o sono dela, ele acabou adormecendo, ali, sentado na cadeira de madeira ao lado dela, com sua cabeça encostada na parede. E ali ficou até o amanhecer.