Como sempre, a noite de Cam estava sendo ruim. Remexia-se na cama, inquieta, ofegante, agoniada. Alguma visão em sua mente enquanto dormia a atormentava. Como se uma sombra da janela de alguém passando pelo lado de fora refletisse em seu rosto bastou para que ela acordasse e saísse da tamanha agonia que a prendia em seu sono. Suspirando fortemente e com olhos confusos ela tentava se acalmar. Levantou-se da cama e foi à cozinha beber um pouco d'água.
- Até quando... Até quando pai... Eu nunca vou ter paz... Nunca... Porque você se foi... Por que eu não consigo tirar isso da minha cabeça... que não fui eu que... Porque... - ela jogou-se ao chão e lá ficou em lágrimas, até depois ir para a sala e colocar música para ouvir, as músicas clássicas que tanto amava.
Do lado de fora da casa, uma inquietação que não fora notada logo desapareceu. O despertar de Cam, as luzes acesas e a música espantaram o que por lá estava... O velho...
Ainda antes de amanhecer o dia nublado, Cam acordou e saiu para a floresta e levou consigo pincéis, tintas e uma tela. Ela pretendia pintar algo lá, onde sempre ficava na floresta, onde ela e Landon se encontraram. Um tempo depois, cerca de duas horas Landon se aproximava. Eram sete horas da manhã. Ao vê-lo, Cam sorriu e voltou-se para a tela que pintava.
- Vai me desenhar?
- Você está poluindo a paisagem que eu via antes, agora tudo foi modificado pela sua presença, logo não será mais as mesmas folhas, o mesmo chão, a mesma visão e por isso não será mais a mesma tela. Ainda não sei como vou contornar isso.
- Então quer dizer que sou uma poluição para sua visão?
- Para minha primeira visão da paisagem sim, porque você modificou ela. Rá, rá, rá.
-Uma maneira delicada de dizer que eu não deveria estar aqui suponho.
- Hum.. Se não queria ter modificado minha tela é sim... Rá, rá, rá. Que bom que veio. Acabei voltando a pintar.
- Estou vendo, e fico feliz por isso. Essa é primeira desde que voltou a pintar?
- Não, fiz uma esses dias atrás.
- E não me mostrou?
- Calma, vou mostrar logo.
- Espero que sim. Mas a quanto tempo está aqui?
- Calculando que você chegou aqui duas horas depois...
- Está aqui desde as 5 da manhã?
- Quase, alguns minutos antes. Eu não consigo dormir sempre e então venho para cá, você sabe.
- Você é louca. Devia tentar dormir, descansar, tem olheiras no rosto. Isso não é bom para sua saúde.
- Eu sei... Mas eu não consigo, tento mas não consigo...
- Bem, ham, eu passei pela casa no lago. Estava tudo tão silencioso que eu me aproximei, não tinha ninguém lá. De onde aquele velho veio? Nem sinal de que alguém mora lá existe Cam. Aquele velho estava mentindo, ele deve ser louco mesmo, não existe outro motivo. Não tem o que pensar.
- Será? Talvez ele seja um louco que mora lá na casa do lago. O que é estranho é que nunca vimos ele, e quando vimos ele estava nos ameaçando com uma fera que ele chama de cachorro. Mas isso não importa, duvido que ele apareça de novo e se aparecer e só a gente sair de perto e ir embora.
- É verdade. Vamos deixar isso de lado. Mas e então, já decidiu o que vai fazer com a poluição para a sua anterior visão artística da sua tela?
- Olhe...
- Esse vulto preto, ou seja lá o que for isso significa a poluição e que certamente sou eu?
- Rá, rá, rá... É apenas uma nébula que eu coloquei no lugar onde você apareceu, depois vou dar formas, mas depois termino isso.
- Tudo bem. Se quiser eu fico quieto para você poder pintar, prometo que não vou falar nada para não te desconcentrar.
- Rá, rá, rá... Não é isso. Depois eu termino. Agora me diga, quando você voltou para sua casa ontem a noite, foi tudo bem? E como está Lois?
- Foi tudo bem sim. Lois está bem também. Ela está sempre lendo livros, e agora que às aulas da Universidade estão para começar ela está animada.
- Que bom. Ela sempre é tão doce, tão alegre. Deve se orgulhar de ter uma irmã assim.
- É verdade, Lois é muito importante pra mim, é a única família que tenho. Mas e você? Pronta para a Universidade?
- Não sei... Acho que sim. E você?
- Estou eu acho. Já me acostumei lá, mas cada novo ano é diferente.
Eles ficaram lá por um bom tempo. Mesmo com a manhã avançando o sol era tímido e reprimido pelas nuvens nubladas que sempre tomavam o céu. Cam e Landon andaram até a casa, pois ela queria mostrar a ele o outro quadro que havia feito. Ao chegarem próximos à casa notaram que algo estava errado. Haviam pessoas do lado de fora olhando algo mas eles não entenderam. A cada vez que chegavam mais perto ouviam o som alto de música clássica vindo da casa que foi colocado propositalmente para abafar outros barulhos. Havia alguém lá. Cam ignorou às perguntas dos vizinhos que se espantaram ao notar que não era ela dentro da casa com todo o barulho e então ficaram assutados. Dirigindo-se à porta e a abrindo notou que haviam coisas espalhadas ao chão e outras quebradas e quando olhou em direção ao corredor que dava acesso aos quartos e ao mesmo tempo para a porta dos fundos que dava acesso ao porão passando pela cozinha notou alguém se escapando.
- Ei! Volte aqui! Ei! - gritou Cam correndo atrás dele.
Landon ainda entrava na casa, pois havia sido retido pelas perguntas dos vizinhos curiosos. E quando viu Cameron sair correndo pediu para que ela esperasse mas não teve como, ela não ouvira.
Ele então pôs-se a correr atrás dela, mas estava um tanto longe. O caminho que percorriam saia dos fundos da casa de Cam e iam em direção à uma parte da floresta que ficava cada vez mais densa, com o chão escorregadio repleto de folhas, lodo, galhos, raízes e com pouca luz. Landon não conseguia ver exatamente onde ela estava. O ladrão corria com não muita velocidade e quando ela se aproximava dele foi surpreendida pelo feroz cachorro que se atirou contra ela levando-a ao chão e mordendo seu braço esquerdo, o que ela pintava e escrevia. Ela era canhota. O velho olhava o ataque de seu animal obediente ao longe e nada fazia para pará-lo. Não demorou muito e Landon conseguiu alcançá-la tirando com violência o cão de cima de Cam com os braços e depois o lançou contra uma árvore e o chutou até que o animal se esgueirou e saiu correndo em direção ao dono. Landon encarou o velho e ia em direção a ele e gritando:
- O que você quer? É louco?
O homem não respondeu e andando depressa sumiu por entre a névoa das árvores da floresta. Landon sem se preocupar com qualquer outra coisa correu para socorrer Cameron que tinha o braço mordido e sangrando muito. Ela tentava suportar a dor e não chorar. As lágrimas não escorriam quase, mas não podia conter os gemidos da terrível dor que sentia. Às pressas Landon a amparou tirando-a de lá e levando-a de volta à casa para irem ao hospital cuidar daquela grave mordida. Os vizinhos ficaram todos preocupados, em especial uma amável senhora de seus 50 anos chamada Yumi que logo se prontificou a ajudar Cam. Landon acalmou os outros vizinhos que haviam acionado à patrulha do bairro e pediu que todos voltassem para suas casas. Depois disso, Yumi, Landon e Cam correram ao hospital. A senhora se disponibilizou depois a ajudar a arrumar a bagunça feita pelo ladrão e no que fosse necessário. Lois ficou sabendo algum tempo depois e correu para ver sua amiga.